top of page
Herdeiros de Tybyra: a luta da juventude LGBTQIA+ indigena
Das comunidades amazônicas aos ministérios de Brasília, indígenas LGBTQIA+ se organizam para defender seu direito de existir após séculos de apagamento. Reportagem no coração dessa luta política e íntima.
“3 anos. 103 dias.” Números vermelhos piscam na tela. No meio da marcha indígena que ocupa as ruas de Brasília naquele dia, o ativista Danilo Tupinikim ergue um cronômetro gigante. Uma contagem regressiva até o ponto de colapso climático. Atrás dele, a sombra do Congresso Nacional domina a paisagem. Pela primeira vez na história do Acampamento Terra Livre (ATL) – a maior mobilização indígena da América Latina – uma enorme bandeira arco-íris corta o horizonte encharcado pela chuva. Os passos de dezenas de indígenas LGBTQIA+ fazem ressoar uma identidade milenar.
Mesa-redonda, manifestação, reuniões com autoridades: Barbara Potiguara, 30 anos, está em todas as frentes. Um compromisso vital para essa mulher trans indígena. Ela luta pela proteção do meio ambiente, pelo reconhecimento de seu território, mas também, e sobretudo, pelo reconhecimento do próprio corpo. Expulsa de casa aos oito anos, depois de assumir quem era, sobreviveu um ano pelas ruas da comunidade. “Passei um mês sem comer direito”, relembra aquela que se define como “uma guerreira indígena”. Em sua aldeia, ninguém era queer. Ou pelo menos não publicamente. O caso dela está longe de ser incomum. “Eu nem sabia que existíamos. Descobri minha sexualidade com gays brancos da cidade”, conta Japupram Gavião, que só aos 20 anos entendeu por que “era diferente”.
Se afastar de suas origens pode significar a liberdade de se aproximar da sua própria sexualidade, mas também costuma ser o primeiro contato com um novo tipo de preconceito. “Ser indígena era algo normal para mim. Foi quando cheguei à cidade para estudar que percebi minha identidade dupla”, explica Danilo Tupinikim. Em 2018, ele se tornou o primeiro indígena a ingressar na faculdade de Ciência Política da Universidade de Brasília. Um choque cultural. “Esse grupo sofre ao mesmo tempo racismo estrutural, violações de direitos territoriais e LGBTfobia”, afirma Alane Baré, coordenadora de políticas LGBTQIA+ do Ministério dos Povos Indígenas. O ATL se tornou para eles a oportunidade de se reconhecerem coletivamente e retomarem o espaço que séculos de colonização tentaram apagar.
Antes de 1500, muitos povos indígenas tinham relações mais fluidas com gênero e sexualidade. “Acho que vocês dizem homem cis”, balbucia Gualoy Guarani-Kaiowá, de 22 anos, ao ser perguntado sobre como gostaria de ser apresentado. Em português, o jovem militante mistura os gêneros das palavras aleatoriamente: em sua língua materna, o guarani, masculino e feminino se confundem. “O preconceito não faz parte de nós, ele foi trazido pelos colonizadores”, lembra Isaias Xukuru, 23 anos, fundador do coletivo LGBTQIA+ Xique Xique. Nas caravelas portuguesas, junto com a moral cristã, desembarcou também a homofobia. Em territórios indígenas outrora considerados “sem pecado”, missionários passaram a difundir uma culpa que atravessou os séculos. “Ainda somos demonizados”, diz Japupram Gavião, 30 anos, que cresceu perto de Marabá, às portas da Amazônia. “Aos 15 anos dei meu primeiro beijo em outro menino e passei uma semana achando que iria para o inferno”, conta Isaias Xukuru. Com uma bandeira amarrada como capa e o corpo pintado com grafismos tradicionais, o jovem de quase dois metros hoje parece um super-herói queer.
Essa presença ancestral é reivindicada pelos jovens indígenas LGBTQIA+ em seu manifesto. “Nossa identidade não é contemporânea, não é moda. Existimos e resistimos na luta pela terra desde o começo. Somos herdeiros de Tybyra”, proclamam os ativistas. Em 1614, a execução brutal desse indígena acusado de “sodomia” tornou-se um dos primeiros casos documentados de homofobia no Brasil. “Foi amarrado à boca de um canhão e teve o corpo despedaçado pela explosão”, escreveu o frei capuchinho Yves d’Évreux em seu diário de viagem. Diversos povos indígenas mantinham práticas homoafetivas registradas por cronistas da época. Se nos territórios colonizados primeiro as mentalidades hoje tendem a ser mais conservadoras, em comunidades como os Bororo no Mato Grosso, a diversidade sexual e de gênero é vista com naturalidade. Foi nesse contexto que, em 2021, Majur Traytowu, 30 anos, tornou-se a primeira mulher trans cacica do Brasil. “Muitos dos nossos mais velhos não estudam suficientemente a própria cultura”, lamenta Barbara Potiguara, defensora do conceito de “transcestralidade”. “Hoje, a presença massiva de igrejas evangélicas em nossos territórios continua alimentando essas violências”, alerta o cientista político Danilo Tupinikim.
Horas depois, o coletivo LGBTQIA+ Tybyra, do qual ele faz parte, ajuda a organizar uma roda de conversa sobre saúde mental indígena. Os relatos sobre a falta de acesso aos cuidados se sobrepõem. “Comecei a tomar hormônios aos 12 anos, de forma ilegal, mas parei por falta de acompanhamento psicológico”, relembra Barbara Potiguara. Enquanto as violências do passado continuam presentes, a saúde mental indígena segue sendo um campo minado. Segundo a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), a taxa de suicídio entre jovens indígenas é vinte vezes maior que a média nacional, com uma sobrerrepresentação de pessoas LGBTQIA+ entre as vítimas. “Nossos corpos-territórios estão constantemente sob ataque”, lamenta Gualoy Guarani-Kaiowá, pertencente a um dos povos mais afetados pela crise. Em 2024, o fundador do coletivo Juind perdeu brutalmente quatro amigos militantes. Cleiton Franco Martins e Leakes Rossate, de 14 e 20 anos, tiraram a própria vida com apenas três dias de diferença. No mesmo ano, Clejo Mar e Leo Martins foram assassinados. A visibilidade é sinônimo de ameaças constantes. Por sua forte presença nas redes sociais, Gualoy sabe disso melhor do que ninguém.
Diante das violências, a juventude indígena resiste, se organiza e se fortalece. O Acampamento Terra Livre é sua principal oportunidade de articulação nacional. “Eu sou a única mulher trans indígena ativista no Ceará. Aqui consegui criar laços com militantes mais experientes”, comemora Barbara Potiguara, com voz firme. Para financiar a viagem até Brasília — três dias de ônibus — ela lançou uma vaquinha online entre os clientes da sua lanchonete. Sua armadura emocional se rompe ao observar discretamente um grupo de jovens do coletivo Juind dançando sob a chuva. A energia deles faz esquecer a lama que se forma sob seus pés. “É por eles que lutamos. Nossos corpos LGBT existem e precisam ser vistos”, sorri Barbara, com os olhos marejados. Na frente dela, Glaucia Guarani-Kaiowá, lésbica de 19 anos, enxuga a tinta tradicional que escorre por sua pele. “O Juind é uma família para mim. Nunca vou abandoná-los”, promete ela solenemente.
Os indígenas LGBTQIA+ encontram força no coletivo. E sua mobilização começa a ecoar também na política institucional. “Com o tempo, aprendemos como funciona a máquina do Estado e usamos isso para garantir nossos direitos”, explica Isaias Xukuru, já habituado aos corredores dos ministérios em Brasília. Em 2023, a pressão dos movimentos levou à criação do BemViver+, política pública voltada especificamente à juventude indígena LGBTQIA+. Uma estratégia nacional também foi lançada em maio passado. “É fundamental fortalecer os mecanismos institucionais para garantir sua continuidade, independentemente das mudanças de governo”, afirma Alane Baré, responsável pelas políticas indígenas LGBTQIA+ na gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Um eventual retorno do bolsonarismo ao poder em 2026 poderia colocar tudo em risco. Mas isso fica para amanhã. Hoje é dia de festa, de celebração dos corpos queer.
Enquanto os graves da “Ball Indígena” fazem tremer o acampamento, Kaê Guajajara entra em cena. A cantora bissexual não binária improvisa um desfile sensual diante de gritos e celulares erguidos. Das cenas artísticas aos espaços de poder, os jovens indígenas LGBTQIA+ já não aceitam ser invisíveis. Privados de representação ao crescer, acabaram se tornando seus próprios modelos.
Anaïs Richard - Abril 2026 - Brasilía
Reportagem originalmente escrita em francês para a revista Têtu.
bottom of page